quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A PSICANÁLISE E O SAGRADO: UMA ARTICULAÇÃO POSSÍVEL

Vanêssa Tôrres de Oliveira, Psicóloga e Psicanalista Coordenadora CPPC-BH - Email: vanessa.torres@uol.com.br

Às vezes torna-se complexo para o psicanalista cristão sustentar sua posição e convicções tanto teórico-técnicas quanto dos princípios e da fé. Por vezes é solitário ser cristão no meio científico. Não raro é também uma posição solitária ser psicanalista no meio cristão/evangélico. Existem resistências explícitas de ambas as partes. Entretanto, pessoalmente e em meu percurso como profissional, tenho tido o privilégio e a oportunidade de experimentar na prática e na transmissão de conhecimentos (adquiridos nos estudos e no exercício da clínica) os benefícios da articulação entre estas duas vertentes do cuidado com as pessoas – sejam idosos, adultos, adolescentes ou crianças, em psicoterapias individuais, de casal ou em grupos.

Não raro sou abordada (tanto por psicólogos quanto por líderes religiosos – teólogos, pastores ou leigos) com questões desta ordem, como por exemplo:

- O que compõe o psiquismo do sujeito e como se articulam ciência e fé na vida das pessoas?

- Como a psicanálise incide sobre o psiquismo e como seus efeitos podem ser percebidos na vida do sujeito?

- Quais os riscos de se submeter a uma análise com um profissional despreparado?

- Como a psicanálise pode ajudar os pastores a identificar a necessidade de tratamento psíquico e/ou espiritual de suas “ovelhas” ou discipulandos?

- É possível trabalhar a interdisciplinaridade nas abordagens psicanalítica e pastoral?

Vou tentar responder seguindo a seqüência dos questionamentos levantados.

A composição do sujeito humano constrói-se em 3 registros (segundo a Teoria Psicanalítica Lacaniana) sendo estes: o Real, o Imaginário e o Simbólico.

Ao Real pertencem as inscrições imutáveis (a filogênese, a hereditariedade, as sensações e sentidos, por exemplo). Ao Imaginário pertencem as idéias, a imaginação, as fantasias, os pensamentos. Ao Simbólico pertencem as emoções, os sentimentos, a linguagem. A este “enlaçamento”, que caracteriza a humanidade de cada sujeito, penso que um outro elo pode ser acrescido – o registro da Espiritualidade – que, de igual modo, faz compor o construto da pessoa integral. Estes elos enodados constituem a estrutura de cada ser humano, individual e singularmente, e quando um deles é movido ou tocado, inevitavelmente, os outros se movem e se reorganizam.

Desta forma, consideramos Espiritualidade (e Fé) como um dos elos desta “amarração”. Portanto, a manutenção da saúde integral do sujeito está significativamente ligada também à este registro. Os princípios da fé e doutrina teológica judaico-cristã, monoteísta, estabelecem limites bem demarcados e referências estáveis que ordenam e orientam o sujeito na busca e sustentação do equilíbrio e da estabilidade na Lei, tão fundamentalmente necessária ao “bem-ser” psicológico, mental e espiritual, e ao “bem-estar” social e biofisiológico de cada indivíduo.

O Salmo 139 aponta os vínculos, os elos e o enodamento destes quatro registros de forma sensível, poética, transcendente.

A questão da Lei é de ordem fundamental para a organização do psiquismo. O “Nome da Lei” (segundo Lacan) é estabelecido pela função paterna. O pai (biológico ou substituto) tem por função estabelecer um dos princípios primordiais que garantem a manutenção saudável da espécie – o corte da simbiose emocional entre a mãe e o bebê, num primeiro momento – a fim de que ambos “cresçam” e se “individuem”, isto é, constituam-se em indivíduos singulares, separados. No segundo momento, o “Nome do Pai” ou “Nome da Lei” entra como função que interdita o incesto preservando tanto psiquicamente quanto bio-socialmente os sujeitos – mãe e filho – incluindo o pai nesta tríade relacional. As questões da Lei e do Pai são princípios igualmente organizadores e orientadores da fé e da ética cristãs.

Assim como a estrutura psíquica “tratada” permite que a pessoa estabeleça com o registro da Espiritualidade uma vinculação saudável e esta, aliada aos outros registros, fundamenta, organiza e orienta o sujeito, a estrutura psíquica “adoecida” do indivíduo fornece elementos que desestabilizam ou desorganizam o enodamento dos registros, transformando os princípios doutrinários e de fé em elementos que comprometem ainda mais e de forma patológica a vida da pessoa. (Na clínica é freqüente observar como traços paranóides, esquizóides e obsessivos são evidenciados).

A Psicanálise, primordialmente chamada de “Psicologia Profunda”, busca, nas origens da fundação do psiquismo e na estruturação do sujeito, os elementos, princípios e modos de construção da organização de cada indivíduo em sua singularidade. A linguagem é seu instrumento por excelência. Através do manejo da técnica que privilegia a palavra, a escuta e as manifestações legítimas do Inconsciente (os atos falhos de linguagem, os chistes, os sonhos, a expressão artística e o brincar da criança, por exemplo), o psicanalista “suporta” seu cliente na busca da articulação destes elementos com seu histórico de vida, suas emoções, suas escolhas e possibilidades atuais. Ao se “recordar e repetir”, na transferência analítica – isto é numa “aliança” única construída com o psicanalista no transcorrer da análise – o sujeito tem a possibilidade de elaborar seus conflitos, experiências traumáticas, angústias, temores e sofrimento, dando uma nova significação para os fatos pertinentes à sua estrutura e reorganizando sua vida psíquica (emoções, pensamentos, comportamento, etc.) de forma mais saudável. Sem dúvida, os efeitos de uma análise bem construída e bem conduzida se fazem sentir em todos os aspectos da vida do sujeito.

Entretanto, todo cuidado é pouco quando se trata de abordar e “trabalhar” as questões psíquicas e o cuidado com a saúde mental de uma pessoa – seja qual for sua estrutura, idade, condição. Um grave risco é de se tomar a psicanálise por um parâmetro equivocado, delegando-se ao analista a resolutividade de todos os problemas e o saber sobre o sujeito e sobre seu psiquismo. O que de mais grave pode ocorrer é que o “suposto” analista não seja, ele mesmo, bem analisado e se conduza de forma inadequada sobre a função do “saber” comprometendo ou fornecendo “garantias” ou a ilusão de cura.

As teorias psicanalíticas podem servir como um referencial balizador que orienta e esclarece, para o pastor ou líder religioso, alguns elementos referentes à vida psíquica do sujeito. Identificar uma estrutura ou patologia psíquica pode ajudá-lo a orientar seu discipulando na busca de um suporte psicoterapêutico/psicanalítico. Entretanto, tentar “mesclar”, ele mesmo, aconselhamento pastoral com análise da pessoa pode resultar em desgaste e conflito emocional ainda maior para ambos.

Se tomarmos, então, por referências os registros e seu enodamento (conforme expliquei anteriormente) e se o analista (devidamente analisado) souber articular com sabedoria e discernimento tais elementos, as ressignificações advindas das elaborações trabalhadas e tratadas em análise certamente contribuirão para a saúde integral e o crescimento pessoal do analisando, preservando também a saúde do analista. Desta forma, o analista deve discernir que se trata do âmbito da Espiritualidade a fim de encaminhar seu cliente em busca de suporte pastoral para orientação, conselho, disciplina, ou discipulamento. Misturar as duas práticas não dá certo!

É desejável a abordagem multidisciplinar no cuidado da pessoa. São vários e distintos os campos do conhecimento. Os elementos que fundam o sujeito estão intimamente ligados, mas psicanalista e pastor são por Deus capacitados e confirmados para tratar, cada um de uma das vertentes da atenção e escuta de uma mesma pessoa. A metodologia para compreender e lidar com os registros também é distinta e peculiar de cada disciplina. Acredito que o bom senso e a saúde emocional são as melhores medidas para que psicanalista e líder religioso saibam discernir seus limites agindo de modo a promover saúde tanto para si quanto para aquele que busca socorro e ajuda.

Recentemente, as igrejas têm sido mais sensíveis ao trabalho do psicólogo e dos profissionais da saúde mental e emocional. Isto se nota através dos convites para proferir palestras, participar de acampamentos ou eventos realizando dinâmicas de grupo, ou mesmo através do encaminhamento de clientes de todas as idades para avaliação, acompanhamento, e tratamento psicoterapêutico ou psicanalítico.

Os efeitos desta conduta são evidentes. O pastor continua ministrando sobre seus discípulos e cuidando da vida espiritual de suas “ovelhas”.

O psicanalista se torna um parceiro neste cuidado tratando dos aspectos emocionais do mesmo sujeito, respeitando, portanto, a uma orientação teórica da abordagem psíquica.

Não há incompatibilidade se cada um reconhece os limites de sua atuação. O pastor não fica sobrecarregado por estar lidando com algo que foge à sua compreensão formal, e sobre o que não tem formação específica para exercer ajuda de forma competente e saudável. O psicólogo/psicanalista promove os elementos de seu conhecimento, formação e princípios teóricos e técnicos sem “invadir” o campo espiritual, apesar de verificar a interferência deste elemento no âmbito da razão, das emoções e até no campo somático.

Vale salientar, ainda, outro detalhe importante: um psicólogo que dispõe de seu tempo para preparar e conduzir uma palestra ou atendimento clínico não está exercendo um “ministério voluntário”. Está a serviço, no exercício de sua profissão, e necessita (como é digno) receber honorários por isto. Assim sendo, é importante a conscientização – tanto da igreja quanto do pastor ou do cliente (mesmo que seja cristão/convertido) encaminhado ao tratamento – de que este trabalho tem um preço justo e deve ser contratado com o próprio profissional com liberdade, objetividade e clareza. Isto contribui para o reconhecimento do profissional cristão, capacitado por Deus, para o cuidado dos que são Seus.

Concluindo, o zelo para com o sujeito se mostra quando a articulação entre os cuidadores se faz de forma respeitosa e compartilhada gerando saúde para todos e conduzindo em direção à cura.

Posso testemunhar que o CPPC tem sido uma referência significativa que confirma a possibilidade desta prática em minha vida pessoal e profissional. Graças a Deus!

Fonte: http://www.cppc.org.br/

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